"Vidas em Jogo" estreia como filme de ação e prossegue como melodrama

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Em cena de "Vidas em Jogo", no ar dia 3 de maio de 2011, Ivan (Silvio Guindane) é perseguido por Betão (André Ramiro)

Depois de dois capítulos, ainda é difícil vislumbrar o que pretende “Vidas em Jogo”, a substituta de “Ribeirão do Tempo”, na faixa das 22h, na Record.

O argumento é ótimo –dez amigos de origem humilde vão mudar de vida depois de ganhar uma bolada na Mega Sena–, e mira, sem nenhuma sutileza, o espectador das emergentes classes C e D.

Os personagens principais são um motorista de madame, uma emprega doméstica, um porteiro, uma taxista, uma cozinheira, um carteiro aposentado, um garçom e uma confeiteira, entre outros. Parte deles mora num prédio abandonado, no centro do Rio, e curte seus momentos de lazer no modesto clube Os Cariocas e no simplório restaurante Cantinho do Severino.

O problema mais evidente, nestes dois primeiros capítulos, é o texto da novela. Uma antologia de frases feitas ocupou as telas, na boca de diferentes personagens. “Em prédio de rico, todo morador é patrão”, disse o porteiro Zé (Felipe Martins). “Dispensemos as formalidades”, avisou o ex-policial Cleber (Sandro Rocha) ao ser apresentado à madame-empresária Regina (Beth Goulart), que disse: “Pobre quando quer se fazer de vítima faz escândalo.”

No esforço de demarcar de forma bem nítida as diferenças sociais e os problemas decorrentes do corte de classe, muitas bobagens foram ditas e encenadas. Raimundo (Rômulo Arantes Neto) tem vergonha da mãe confeiteira, Augusta (Denise Del Vecchio) e sonha ser chamado de Ray.

“Mãe, é muito ruim ser pobre?”, perguntou Tatiana (Shaila Arsene), filha de Regina, que respondeu: “Uma tragédia, minha filha. Por isso que você e sua irmã têm que estudar muito, se formar, arrumar um bom emprego e um bom casamento.”

No papel do bom samaritano, Carlos (André di Mauro) tem um cachorrinho, chamado Zé, e repete sempre um bordão: “Quem tem fé consegue o que quer”. No final do primeiro capítulo, o cão voou e ficou na linha de um tiro que atingiria seu dono. Cena de “Corra Que a Polícia Aí”.

No segundo capítulo, Carlos tocou saxofone para o animal, internado no veterinário. No blog da novela, a Record convida o público: “Deixe sua mensagem de apoio ao cãozinho Zé”.

Na estreia de “Vidas em Jogo”, houve cinco cenas de perseguição ou violência, todas muito bem filmadas, por sinal. As palavras “bolão”, “sorteio” e “loteria” foram faladas mais de duas dezenas de vezes.

No segundo capítulo, não houve nenhuma cena de ação nem qualquer referência ao sorteio, perdido pelo grupo. O tema foi o melodrama –o sofrimento do cãozinho Zé, a descoberta da gravidez da patricinha Patrícia (Thais Fersoza), que namora o motorista da família, Francisco (Guilherme Berenguer), e o choque de Augusta ao descobrir que Ray tem vergonha dela.


São apenas dois capítulos. Há muito chão pela frente (se repetir a performance de “Ribeirão do Tempo”, podemos falar em um ano). O tema da novela é bom, mas ainda falta muito para deixar de ser apenas uma promessa.

Mauricio Stycer
Crítico do UOL

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